quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Desembarque 

Há 1 ano, eu ansiava pela viagem para reencontrar o amor de então
Haviamos nos despedido meses antes e a saudade que eu sentia dilacerava o pobre coração
Cruzar o Atlântico era tudo o que eu queria.

A chegada até a terra dos moinhos não foi das melhores e o passeio pelo Velho Mundo foi repleto de tristeza e decepção.

Retornei apreensivo pois senti que tudo estava por um fio. Chorava suplicando por nós. Eis que um dia veio o aviso de que ela não precisava mais de mim. Outro havia tomado o "meu" lugar. Chorava e suplicava por nós. Eu ainda precisaria esperar dois meses pelo retorno dela. Eu estava disposto a lutar mas ao mesmo tempo eu não tinha forças para levantar.
Sim, confesso, durante aquelas semanas eu tive que tomar remédios para dormir. Perdi 6 quilos. Não conseguia levantar. Chorava. Minha vida se resumia a monitorar emails na vã esperança de um sinal dela.

Recorri aos amigos espalhados pelo mundo e não houve um único dia que não tenha recebido ligações e mensagens provenientes de cidades daqui e de outros países. Eram meus amados amigos me ajudando a levantar. A eles devo tanto...

Aos poucos fui levantando. Mas o buraco no peito doía por qualquer razão. Respirar o mundo sem ela era uma delas.

Mas levantei.

Só sei que durante aqueles 4 meses de dor, desde minha chegada no Velho Mundo até o dia da notícia de que não éramos mais uma coisa só, eu não imaginava o que me aguardaria meses depois. Eu só via vazio, meu corpo transbordava de dor e angústia. Como sair do fundo?

Poucos tempo depois, a vida dá a guinada exponencial. Tirando forças sei lá de onde, eu consegui alcançar degraus sempre sonhados...e havia apenas 1 mês do golpe que me atirou na lona.

Daqui a 4 dias completa-se 1 ano do embarque. Há 1 ano, eu estava providenciando detalhes de uma viagem que me destruiria. Mal sabia eu que os preparativos não eram para aquela viagem mas para o início de uma outra que me colocaria exatamente onde estou agora.

Não posso ser leviano e dizer que eu não era feliz. Era em certa medida. A ela agradeço por vários momentos mágicos e maravilhosos. Com ela aprendi muito e agradeço por tudo.

Mesmo que eu não tenha me despedido, ela foi.

Mas não fiquei parado na estação. Entrei no meu vagão, tomei meu rumo.

O Desembarque, pela porta direita ou esquerda
Quem decide sou eu.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Preto e Branco

O contraste entre a pele alva e o vestido preto
A suavidade com a qual os cabelos caem sobre os ombros
O sensual jeito de andar
O cheiro da pele
A suavidade do toque
A singeleza dos pés pequeninos

O encaixe de nossas alturas
Nossos braços
Das pernas dela

Me dão loucura
Enjaulado

Contenção.
Quando você precisa conter seus desejos parece haver um total desacoplamento do seu Corpo com a Vontade dele.
O seu próprio Corpo pede a Vontade mas quando um não atende o desejo do outro há uma briga monumental entre ambos.
O Corpo, desobediente, enjaula toda a vontade de maneira cruel, porém, prudente.
A Vontade, coitada, grita, esperneia, se agarra nas grades da jaula e tenta quebrar tudo.
O Corpo, para não deixar transparecer os gritos da Vontade, a amordaça e abafa o som.

Ao mesmo tempo que o Corpo reprime a Vontade é ele próprio que dá cabo de satisfazer tudo o que ela quer. Pobre Vontade, completamente refém.

Duro mesmo mesmo é quando existem duas Vontades que se querem e gritam em dois Corpos repressores que não as deixam sair. Às vezes eles até permitem uma leve troca de olhares entre as Vontades mas logo depois vem a contenção.

Resta saber até quando as barras das jaulas vão suportar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Certo é Errado?

Voltava para casa após o causticante dia de trabalho no Rio de Janeiro
Era por volta de 19:00 e, já nas imediações de minha casa, no mesmo lado da calçada no qual estava vi a cena:

 Uma mulher, magra, aparentando uns 30 e poucos, suja, com alguns papéis nas mãos e usando roupas gastas observava atentamente, enquanto caminhava, a funcionária de uma farmácia que arrumava coisas em uma estante próxima à calçada.
Aquela linguagem corporal me chamou atenção e, por algum motivo, parei de caminhar para observar a cena.

Enquanto a funcionária organizava os objetos sobre a estante, a mulher, sorrateiramente, escolheu e pegou um par de chinelos pendurado em uma outra estante na calçada. Após pegar os chinelos e escondê-los sob a blusa suja, seus olhos encontraram os meus.

Naquela fração de segundo, me vi em um dilema doloroso. Ao mesmo tempo em que alertei a funcionária da farmácia, eu não queria tê-lo feito. A mulher, com os olhos, suplicou: "Não a avise". Eu, com o olhar, respondi: "Não faz isso"
Ao mesmo tempo em que entendi a mensagem dela, a reação profundamente automática foi de avisar a funcionária da farmácia. Após nosso diálogo  instantâneo de olhares, ela jogou os chinelos no chão e rapidamente se foi.

Os chinelos eram de criança. E ela havia escolhido com cuidado, porém com rapidez, o tamanho que roubaria.

A funcionária me agradeceu mas, de certa maneira, aquilo me doeu.

Ao mesmo tempo que evitei que algo fosse roubado, impedi que uma criança pudesse ter seus chinelos. E digo com uma certeza de 100% que se eu estivesse na mesma situação de penúria daquela moça, eu roubaria chinelos para minha criança.

Fiz uma boa ação ou não? Agi certo ou não?
Por alguns segundos, pensei: "eu preferia não ter visto isso".
Mas seria muito fácil jogar o problema para debaixo do tapete. Não, fechar os olhos não adianta...

Até agora não sei se agi de modo correto ou não. Foi um misto de sentimentos que percorreram meu corpo e até mesmo o alerta que fiz à funcionária foi sem muita convicção.

Até onde vai a definição de certo e errado?

Não sei...


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sonhos

Quando eu era criança eu costumava sonhar, com grande frequência, que voava
Era fácil e eu sabia como alçar voo rapidamente
Lembro que quando acordava, a primeira coisa que tentava era voar
Eu realmente não entendia o por quê de não conseguir quando estava acordado...era tão fácil enquanto eu dormia.

Um dia minha mãe me disse que sonhar que estamos voando significa que estamos crescendo e que, com o tempo, paramos de sonhar com voos maravilhosos, cheios de leveza e esplendor pelo céu azul.

Nesta noite de início de dezembro, após muitos e muitos anos, sonhei que voava.
O sonho durou segundos, mas, o mais incrível, é que voei nos mesmos cenários dos sonhos da minha infância. E foi fácil como sempre foi...

Certamente, aos 32 anos, não estou mais crescendo. No entanto, acho que sonhar que estamos voando não tenha tanta relação com crescer.

Talvez tenha a ver com leveza e inocência.

E mesmo que meu voo tenha durado tão pouco

Acordei feliz ao saber que no meu peito
Ainda carrego um pouco de infantilidade
Um pouco de leveza
E um pouco de inocência

Mesmo que elas só apareçam após anos e anos
E por tão pouco tempo